Jardins de Palavras em canteiros de versos a cerca de eiras de prosa. Em 2008, um mês, um livro, desde julho
Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012
Crônica de um sonho enlouquecido

Hoje sonhei que enlouquecia,

Um sonho tão enlouquecedor,

que precisei escrever,

para da loucura esquecer.

 

Na verdade me perdia em viagens,

e me encontrei, dirigindo meu velho carrinho,

De volta a Bogotá, uma bela cidade latino-americana,

na bela e sempre visitada Bolívia.

 

(claro, seres acordados, não é a Bogotá, capital da Colômbia, me tomem por louco, não por ignorante).

 

De volta para lá, mesmo hotel,

bela praça tão conhecida,

(de fato, uma velha conhecida

praça de Casco Viejo, Panamá).

 

Insatisfeito, mas feliz, sai para andar.

Tanto andei que cheguei de volta,

Bem lá atrás, no apartamento onde adolesci,

E muito pouco de feliz vivi.

 

Como qualquer um, desesperei.

Afinal, vim a pé e descalço

de minha Bogotá interior,

e lá deixei todos os documentos,

 

(entregues a minha aluna que achou minha pasta, perdidos agora, aluna e pasta, em outro país).

 

Foi quando percebi quão horrível,

mas ainda apresentável, eu estava.

Afinal, me acolheram, ao me verem olhando vitrine.

Entenderam-me um cidadão em desespero.

 

Acolhido e feliz, tentei ligar para casa,

para o aconchego e para ser buscado.

Não sabia ligar, mas não importava,

Pois vi minha irmã, e a ela fui ter.

 

(Não era ela. Não era! Quem é esta então... me fui em outra coisa pensando...)

 

Dalí, ... (sabe-se como alguém muda de ambiente em um sonho?)

eu não sei como, noutro lugar.

Agora, queria de novo ajuda,

mas moleques em um bar me ignoravam.

 

Foi quando me percebi de novo,

agora mendigo. Tão pior, tão mais sujo e desesperado,

Que não podia mais, aos olhos dos comuns,

ser alguém que precisava de ajuda.

 

Este é o mundo da loucura.

É o mundo em que o muito pior, já não é gente.

É de volta bicho, bicho disponível à implacável,

insensível, intransigente seleção natural.

 

E fui bicho em meio às ruas. Bicho, fui invisível.

Invisível, vi ao que eu reconhecia, só e sempre,

clara e lucidamente. Vi a mim mesmo.

Tão longe e inacessível. Só eu afinal, me via.

 

 

E quando enfim, de fato e definitivo, mesmo eu me percebi, era um sonho, onde o pior ou o melhor sempre ficam para o final. Já meio acordado, sem ter olhado meu rosto na vitrine espelhada, me lancei à porta da escola de minhas filhas, e fui resgatado ao mundo dos não-bichos por seu amor, e ao dos despertos,

pelo despertador.



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 02:28
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