Jardins de Palavras em canteiros de versos a cerca de eiras de prosa. Em 2008, um mês, um livro, desde julho
Quarta-feira, 12 de Setembro de 2012
Ode à imbecilidade do perfeccionismo das Américas

 

 

 

Por que em Europa menos precisam,

ou menos gostam, de psicanálise?

Será porque melhor vivem em meio ao torto,

imperfeito e incerto?,

frutos de um mundo velho, destruído, reconstruído,

que se ama e deixa envelhecer?

 

Então, por que nós, pobres de tantas paredes sem reboco,

Com telhas de zinco, de lata, paredes expostas, tantas,

tanto rejeitamos as curvas não medidas,

as falhas, mesmo se deliberadas,

As mudanças, sem planos,

 nos tons desbotados de uma velha parede já rosa?

 

Na torta, incerta, vergada, manchada,

empretecida morada, por lá se faz casas com doçura,

casas com capricho.

Se faz cuidado e mimo entre velhas paredes.

E se vive no torto, como ninguém.

 

Aqui, ilude-se quem acha que igual se faz,

em tortas paredes ouropretanas.

Não fossem salvas pelo mundo,

havia muito, derrubadas estavam.

Pois há muito lhes odeiam seus moradores.

 

Há de pouco tempo para cá e só (justiça aos novos e aos raros),

algo de sensibilidade, de mudança por lá,

que na grande cidade-província não há.

Não deixe manchas, não deixe torto!

Não deixe nada fora de esquadro.

 

Sabe que sinto ser por isto,

também por isto,

que de árvores tão poucos gostam?

Aqueles cegos urbanos brasileiros.

Árvores não seguem esquadro!

 

Árvores entortam, soltam folhas,

Árvores não crescem como deviam.

Cegos que são, não vêm, porém.

Árvores não envelhecem. Anos se vão,

novas são suas folhas. Sempre, suas flores.



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 02:01
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2012
Crônica de um sonho enlouquecido

Hoje sonhei que enlouquecia,

Um sonho tão enlouquecedor,

que precisei escrever,

para da loucura esquecer.

 

Na verdade me perdia em viagens,

e me encontrei, dirigindo meu velho carrinho,

De volta a Bogotá, uma bela cidade latino-americana,

na bela e sempre visitada Bolívia.

 

(claro, seres acordados, não é a Bogotá, capital da Colômbia, me tomem por louco, não por ignorante).

 

De volta para lá, mesmo hotel,

bela praça tão conhecida,

(de fato, uma velha conhecida

praça de Casco Viejo, Panamá).

 

Insatisfeito, mas feliz, sai para andar.

Tanto andei que cheguei de volta,

Bem lá atrás, no apartamento onde adolesci,

E muito pouco de feliz vivi.

 

Como qualquer um, desesperei.

Afinal, vim a pé e descalço

de minha Bogotá interior,

e lá deixei todos os documentos,

 

(entregues a minha aluna que achou minha pasta, perdidos agora, aluna e pasta, em outro país).

 

Foi quando percebi quão horrível,

mas ainda apresentável, eu estava.

Afinal, me acolheram, ao me verem olhando vitrine.

Entenderam-me um cidadão em desespero.

 

Acolhido e feliz, tentei ligar para casa,

para o aconchego e para ser buscado.

Não sabia ligar, mas não importava,

Pois vi minha irmã, e a ela fui ter.

 

(Não era ela. Não era! Quem é esta então... me fui em outra coisa pensando...)

 

Dalí, ... (sabe-se como alguém muda de ambiente em um sonho?)

eu não sei como, noutro lugar.

Agora, queria de novo ajuda,

mas moleques em um bar me ignoravam.

 

Foi quando me percebi de novo,

agora mendigo. Tão pior, tão mais sujo e desesperado,

Que não podia mais, aos olhos dos comuns,

ser alguém que precisava de ajuda.

 

Este é o mundo da loucura.

É o mundo em que o muito pior, já não é gente.

É de volta bicho, bicho disponível à implacável,

insensível, intransigente seleção natural.

 

E fui bicho em meio às ruas. Bicho, fui invisível.

Invisível, vi ao que eu reconhecia, só e sempre,

clara e lucidamente. Vi a mim mesmo.

Tão longe e inacessível. Só eu afinal, me via.

 

 

E quando enfim, de fato e definitivo, mesmo eu me percebi, era um sonho, onde o pior ou o melhor sempre ficam para o final. Já meio acordado, sem ter olhado meu rosto na vitrine espelhada, me lancei à porta da escola de minhas filhas, e fui resgatado ao mundo dos não-bichos por seu amor, e ao dos despertos,

pelo despertador.



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 02:28
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Sábado, 1 de Setembro de 2012
Os Açores e a vida.

Um documentário na TV,

me tirou da tristeza de um dia quente,

seco e só, de inverno.

Açores. De súbito, foi como ver minha,

própria, nua e exposta,

alma para eu explorar.

 

Haverá o momento mágico,

E irreconstituível, dos anos em que mais lá fui?

Ou a genética cultural,

de ser um Ribeiro mais de século antes,

fugido de Faial?

 

Angra destruída, e reconstruída;

Campos cobertos de Erica azoricas,

que por sobre os quais por tanto tempo me gastei

a contar suas folhas e insetos;

O Pico ao fundo, visto de São Jorge...

 

“O terrível encanto...”

descreve o entrevistado,

concordo eu.

É para onde fugi,

no abraço de uma família amiga,

quando minha vida ruiu.

E lá, fazendo ciência,

Refiz foi a mim.

 

A hipótese de nunca voltar,

Não existe.

De fato, se existe alternativa a morrer

esmagado em uma cachoeira, aos 95 anos,

seria passar dos 100 em Angra,

passar dos 100, de volta.

 

“Uma parede líquida que nos cerca...”

Agora discordo.

Não há paredes alí

... há é o infinito imenso de se estar

e ser em meio ao mar!

 

Tantos lugares conheci,

Mas fora o berço,

me toca, seduz, adota,

Só aí, só os Açores.



publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 23:27
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O Poeta e o Biólogo, e o jardineiro
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