Jardins de Palavras em canteiros de versos a cerca de eiras de prosa. Em 2008, um mês, um livro, desde julho
Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008
Ciclos de sol & Trilhas

 

CICLOS DE SOL
O CONTINUAR EM MUDANÇA
 
 
 
 
 
 
 
 
Sérvio Pontes Ribeiro
 
 
 
 
Terceiro livro de poemas, como dantes,
Inspirado nas musas do sol, das árvores, do vento, da vida, d’amores, e da morte.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 22:19
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Ciclos do sol & Trilhas - Copas e cortes

 

Galhos, espinhos, tronco.
Árvores ásperas,
Dia inóspito, de frio a seco.
Nas plantas, inverno ainda é,
mesmo que folhas novas gritem:
Primavera!
 
Poucas folhas,
muitos galhos,
farpas,
espinhos,
dores.
Arranho, rasgo, sangro.
 
O capim navalha não é, afinal,
para nos ferir.
Tem pelos firmes para as árvores escalar.
Lá encima morre, seca e,
se queimasse, a árvore mataria.
 
O mundo não é, afinal,
Tão belo? Ou é?
Pois se a árvore morre, em matando a si,
o capim o faz para seu rebento crescer,
à luz do sol que não é, afinal,
para todos.
 
Mas agora escalo eu.
Gosto mais de árvores,
arranco o capim.
Abro caminho para o topo a sangrar,
Revida o capim.
 
Me prendo.
Firme, pois o vento balança este arvoredo.
Uso tudo.
Músculo, cada um contrai, braço, coxa, pé.
Folhas, várias copas, tão belo dossel.
 
Corpo, força, copas,
Beleza, dor, vida.
Cada dia numa árvore,
Cada hora num sofrer.
E em cada respirar,
Duro, doído, atento, só...
 
Estranho.
Não perco o senso daqui.
Aqui...
Dói-me tudo por ter vindo.
 
E é bom, é belo, afinal,
É mesmo assim, extraordinário.
Vivo cada dor, feliz por cada galho.
 
Cada olhar,
todo o ver, o sentir,
a cada metro a subir,
a vida, afinal,
permitir.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 22:18
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Ciclos do sol & Trilhas - Suddenly, while speaking to you

 

Suddenly, there is no better place to live but home.
Indeed, no other place to live.
Because it is home, and because home is here,
And here, a rich place one found.
Rich, yes, but, it is rich in a sense many of you won’t understand.
 
Home is rich because there are people improving in life,
and people not doing a thing, and in a dramatic way.
Still, better than among anyone else,
values hard to sustain do survive among them, the latter!
Values, perhaps, do improve in a sense otherwise I used before.
 
And anyone, willing to really be touched by life, easily mix:
chance, value, and people.
Hence, from a plenty life existence, one makes soul and flesh, life and death,
an ultimate move.
Home, in its deepest essence, was home of my father,
the ultimate hero of such choice.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 22:05
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Ciclos do sol & Trilhas - Largue-me!

 

Largue, solte, deixe-me!
Não, obrigado, não me ame não,
Se achares que amar é morrer por alguém.
Pois sua morte me mataria e, morto,
Preso a você estaria e, amar,
não, não é Prisão.
É mesmo redenção,
 
O oposto do abandono é desapego.
 
Deixe-me viver, sofrer, ser só,
Ser sem você.
Deixe-me ser feliz, se infeliz estás.
Procure alguém melhor, se melhor para mim,
Você nunca será. Insatisfeita ... estou nós dois.
 
Separados e juntos na mesma tristeza, de não dar mais.
Solte-me, parta.
Proteja-se dos fofoqueiros, dos que não querem deixar viver.
Seja você também feliz, mais do que eu. E eu, não ajudarei,
Pois eu, do meu jeito, me exponho, e cada vez mais.
 
A cada um que ataque, me abro,
A cada cuspe na cara, a alma a bater.
Prove-me você que a humanidade não presta,
Pelos teus, ou outros, atos mesquinhos.
Provo-te que presta, pois a humanidade sou eu,
e sou mais eu que você, e mais você que eles.
 
A cada cara fechada, me abrirei,
A cada paulada, te beijarei.
A cada tentativa de suicídio, tomarei suco de tomate para não ter câncer de próstata.
A cada momento, sorrirei, para provar-te que não há mal nenhum,
A não ser no ódio. E ódio, nem pelos odiáveis invejosos, e seus atos despeitados,
Nem pelos despeitados, e seus dias odientos de inveja.
 
Na busca de dias de luz, espero que você se ilumine, e me deixe tomar banho de sol.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 00:09
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Domingo, 26 de Outubro de 2008
Ciclos do sol & Trilhas - Hoje a noite

 

Um vento forte, como sempre soprava por aqui,
Lá fora parece inverno, lá no norte, é.
Aqui circulam na fumaça do charuto pensamentos perdidos,
Em nada presos, soltos, esvoaçados no absoluto, “perdidos”.
 
A felicidade em uma criança engraçada. A criança engraçada daquela
pessoa, também, ela, tão engraçada.
Tantos anos, e nada, das coisas que não mudam, muda.
Outras coisas, todas, mudam.
 
Coisas ruins, e coisas boas, não mudam.
A farsa que cobre as coisas, e faz delas fantasias, esta muda.
A crença forte do fraco em suas mentiras, muda.
Muda com a falta de coragem de ser o que no fundo se quer tanto.
 
Acaba a farsa, na incapacidade de ser verdade.
Sobra a verdade da estupidez de um momento assim.
Perdido no que se perdeu, penso tolices, mas aqui fora algo mais importante.
O agora, este momento, o vinho, charuto, música, poema, viver devagarzinho,
 
De cada gole sobra na garganta a certeza de que é bom só estar quieto,
só estar vivo,
Só se deixar no cheiro da loção de barba, na certeza da quietude, do barulho,
da festa, da falta dela, do luto, da verdadeira forma de ser, sem não deixar estar, sem querer ser nada, mas sem perder coisa alguma.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 16:54
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Ciclos do sol & Trilhas - Rodoviária

 

Em nome do pai, da filha, da mãe,
Do consolo, beijos, carinhos, e da tia,
Que vai levar ela, de espírito santo,
Ou, se não, puro de criança, para passear tão longe.
 
Lágrimas de lá, lágrimas de cá.
Reza e coragem.
Gente de toda gente, de todas caras e lugares.
Dias felizes, mocinhas felizes.
Dias de luta. Tanto faz.
 
A rodoviária é um lugar feio, de fatos belos.
Olhinhos brilhantes, festa, esperança, viajar.
Em movimento, todas as coisas trazem esperança.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 16:51
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Ciclos do sol & Trilhas - Mudança

 

Podia chover assim para sempre.
A chuva densa, longa, em toda parte.
Não só aqui, em toda parte, por milhas.
Chuva, chuva, chuva. Então seca, depois de muita chuva.
 
Uma terra que molha, encharca, e vira rio, vira lago, árvore.
Podia chover assim para sempre, mas não há sempre.
Nada é destinado para o sempre. O nada, sempre aguardará o sempre.
Quem não sabia disto? Quem, estúpido, nunca aprendeu?
 
Amanhã, será pior? Será sim. Por que sempre o óbvio nos pega de surpresa.
Sempre o mudar, obviedade escandalosa, vai assaltar a paz cega e confortável.
Sempre, o nada, ou o mudar? O que vai para sempre? Quem foi para sempre?
Quem nunca irá, e sempre estará?
 
Não, não acreditamos na óbvia mudança da vida, e ela sempre parece piorar.
E, se de susto, ela algo melhora, é tão esquisito. Chamamos de sorte grande!
São a vida e a fé feitas da mesma matéria? É o viver e é o existir coisas iguais?
Podia chover assim para sempre. Eu queria viver mais que existir.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 16:50
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Ciclos do sol & trilhas - Olhos fechados

 

Poema em sonho,
Feito por todos, feito de lembrança.
Feito assim, de pulo, de susto.
O susto, como a morte, é a surpresa da vida.
 
Vida, seja o que for, são as histórias dos vivos,
Que a morte consagra, e nunca mais, deixa morrer.
Olhos, enfim, fechados só para o que insistimos em fixar:
Olhamos o vazio colorido pelo fútil, e não, para o amar.
Almas abertas. Olhos, o que importam? Nunca viram nada.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 16:46
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Ciclos do sol & trilhas - Ciência e arte: nós e os outros.

 

Na ciência sou Gaugin, na poesia sou Russeau.
Num extremo, qualquer rompante (ou sorte?)
de brilhantismo ou criatividade,
se pauta na rigidez de um conteúdo,
em um momento histórico e intelectual.
E mesmo assim, nesta couraça, quero ser a medida,
A cor, o tom que dita a descoberta.
 
Na poesia, sou livre e hipocritamente pueril.
Expresso a alma sem forma ou regra,
Começo perto dos 40, ao menos a ser notado.
Me faço de um infeliz, incompetente amador,
E sou, mais que tudo ou qualquer coisa rotulável,
verdadeiramente eu, minha alma, minha desproteção.
 
O poeta é você. Você criança, ainda lá,
Respirando infância e falando verdades,
Dizendo você para o mundo, que não entende.
O mundo, um punhado de adultos estranhos,
Sua alma, a criança dita e feita, longe dos grandes.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 16:43
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Sexta-feira, 17 de Outubro de 2008
Ciclos do sol & trilhas - O pombo perneta e o manco

 

Ali no canteiro central, o inusitado.
Um pombo perneta andava.
Era feio, de certa forma apenas.
Pois era também brilhante e belo de outra forma,
Como seria um paraplégico em um trapézio.
 
Era magro e sujo, pois faltava na vida capenga
equilíbrio para comer e se limpar.
Mas, mesmo assim, ia atento.
Se equilibrava na perna restante,
e nela era forte, mas não firme.
 
Então, de súbito e longe de tanto olhos por perto,
Em um centro cheio e ocupado, um manco.
Com sua perna mais curta e olhar triste,
Ele viu o pombo, e se aproximava.
Ia ao pombo, como criança que achava o cãozinho de sua vida.
 
Sem sorrir e com a discrição de um manco
que não quer ser visto, frustrou-se.
O pombo voa. Pois na terra era manco,
No céu ainda era ave.
Me fez pensar, aqueles dois.
 
Abre o sinal e parto, querendo crer em uns “queira Deus”:
Que este manco pudesse ler e escrever,
tivesse olhar terno e carinhoso,
fosse capaz de falar, e ter o que dizer,
fosse amoroso, e muito amasse.
Fosse então ainda homem em seu próprio céu.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 02:25
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Ciclos do sol & trilhas - A tela e a vida

 

Quieto, olhar triste.
Um momento distante,
mais longo que o longo suspiro,
solto devagar,
naquele cantinho.
 
Ali, vive-se um amor latente.
Pela vida, pelos outros,
para os que temos, os que não,
mas amamos.
Para as crianças, os velhos,
as crianças e velhos de nossas vidas,
ou, apenas, todos.
 
Ali, num instante triste,
vive-se uma vida feliz.
Felicidade, de fato, e afinal,
é a intensidade de uma vida de amor.
 
E uma vida de amor
vai ter cores e texturas de tristeza.
São cores fortes e marcantes,
e marcas severas em uma tela pintada.
São destas coisas que puxam seu olhar,
e te fazem pensar, primeiro,
que é uma tela triste.
Só se admirada além das marcas e escuros,
é que se vê a pintura.
 
Azul, amarelo e vermelho.
As cores da vida são sempre
as mesmas, façam elas
o verde, o laranja, ou o marrom, ou mesmo o negro.
O importante é que a vida só se faz com cores.
As cores são a pintura.
A pintura, a felicidade.
 
Se a vida, ao contrário, terminasse em
uma tela branca e sem arranhões? Queira não,
e a minha seja uma colorida pintura.
 
Nuances, flores, montes,
histórias, saudades. Sim,
muita saudade.
De uma juventude feliz,
de um pai nesta juventude.
Saudade de um pai morto.
De seu rosto, ainda quente
e ainda terno.
Saudade da referência do existir,
do meu existir,
que era, em grande parte,
Ele.
Saudade demais de seu rosto vivo,
seu sorriso, seu amor,
agora em mim, agora meu.
 
Jardins, casas, balanços, mais histórias.
Filhas lindas, felizes.
Eu, claro, feliz.
Saudade, com cores fortes, vibrantes,
de um futuro
onde meu lugar seja outro,
E a tela, linda, ainda mais bela.
 
Restaurar é a arte de diluir amor nas cores de nossos dias,
e não deixar os olhos esquecerem que viver é a arte de ser feliz.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 02:18
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O Poeta e o Biólogo, e o jardineiro
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