Jardins de Palavras em canteiros de versos a cerca de eiras de prosa. Em 2008, um mês, um livro, desde julho
Sábado, 21 de Julho de 2007
Marina, cão, criança: Atlântico
Ali naquela tarde, céu azul.
Já era noite, mas ainda dia.
Um boxer malhado, tentava-lhe as pernas.
Ela, alegre, pedalava jogando-se de um lado para o outro.
Ele, corria, do outro lado para um,
Ela, trocava as pernas de lado,
pedalando com um só pé.
 
O cachorro era dela, e nada mais parecia ter dono.
Marina do porto, esta era uma granda farra.
Sim, granda, pois aqui é Angra do Heroísmo,
Aqui é Terceira, é Açores, é um lugar de granda beleza,
E o charme de um belo veleiro ao fundo.
 
Mais ao fundo, o Morro Brasil. Chama-se assim.
Pequeno, redondo, e bem verde de urze e juniperus.
Laurissilva ao mar.
De tanto chamá-lo, acaba-se virado para lá, para o Brasil.
Para lá, que se dane além deste morro, não quero pensar.
Ando às voltas daqui, da solidão do eu que busquei,
E vou encontrando.
 
É como naqueles dias que andávamos pelas ilhas quase todas,
A cata de insetos nas copas e nos solos.
Foi naquela tarde, em São Miguel,
Uma gruta deixada há pouco.
Sua boca para o mar,
Suas entranhas de tubo de lava.
Bela e escura traquéia da terra.
No mar, decidi, e avisei:
“vou nadar pelado no meio do Atlântico norte.”
E nadei. Brasucas!
Ela, admirada ou espantada, olhava de lá.
Sobrou a foto, só e pensativo como eu mesmo estava,
E ainda estou.
 
Para além, plantação de tabaco, mãos pertos,
Pensamentos longe da vida, pensando em segredo
no que a vida se tornara.
Pensando em mim, o verdadeiro eu,
Não capturado por esta ou nenhuma situação,
Longe de ser pego por mim mesmo,
Pela minha angustiada busca por soltar alguém,
Que nunca vai existir.
Ali, solto e desincumbido de minha alma escrava
de besta que é,
Vivi o viver, e nunca mais quis voltar.
 
Ali naquela tarde, sabia, um dia ia escrever:
“Foi naqueles dias que andávamos pelos Açores.
Passava semanas ou meses por lá.”
Os Açores, como qualquer ilha, é um lugar de onde parece que
quando se vai, nunca mais se sai.
E aqui, sempre que volto, vejo que mesmo, mesmo, nunca deixei.
 
Fugi até me encontrar mesmo muito só. Acho que era mais ou menos isto que eu queria.
 
Açores, de novo.


publicado por Sérvio Pontes Ribeiro às 22:28
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